Não mais.
Mas que teria ela feito e a quem o teria feito para ser dela tamanha responsabilidade? A culpa chegava-se, rastejando. Sabia que tinha sido ela a sonhar aquela viagem. Fora ela, ninguém mais, quem passara horas em frente de mapas e guias para preencher o mais possível aqueles vinte e um dias. Vinte e um dias parecem uma eternidade quando se têm punhais cravados no peito. A culpa continuava, sorrateira, a pressionar o metal para que nunca deixasse de lhe doer.
Era dela aquela responsabilidade, via-o agora claramente. Naquela noite, quando a aconchegou nos braços e lhe pediu com toda a sua vontade que ficasse, era já a culpa do abandono que a matava. Depois de tanto que dela tinha recebido estava a abandona-la para morrer sozinha.
No caminho para casa, por entre soluços e penas tinha decidido a fazer justiça à frase do livro do avô. Fazer-se responsável! Nesse dia decidiu privar-se, até data indefinida, de algo que lhe era quase natural fazer. Teve fé que o sacrifício a tornaria responsável, pelo melhor, esperava. Pelo que tanto desejava. Não fez e não fez e não fez. Estava tudo ali á distância de um dedo e mesmo assim ela não o fez. Foi forte, foi dura, foi mártir pela sua causa.
Durante a viagem, perante a imagem avassaladora de um Homem que, também ele, se sacrificaria pela sua causa, prometeu. Renovou os votos da promessa. Quis muito. E continuou sem fazer, não o fez nunca mais até à volta.
E no regresso, no abraço doente do regresso, tudo o que ela tinha pedido, tão fortemente desejado… Tudo pelo que se tinha sacrificado estava ali. Ela acreditava agora que era sua a responsabilidade daquele abraço ainda vivo. Tinha conseguido. Era tão dela como sua aquela vitória. Aquele abraço. Aquele calor, aquele olhar transbordando ternura como nunca mais viu. Era dela, porque teve força e vontade e sacrifício.
Estava decidido. No calor de uma noite de domingo. Neste Verão depois de três anos, estava decidida a não mais o fazer. O sacrifício estava à mesma distância. O mesmo dedo a separava de tudo quando era preciso fazer para ser responsável pelo que tanto desejava agora. Foi à varanda; fumou o único cigarro da semana. Sorriu, chorou e olhando aquele firmamento estrelado igual ao que a viu crescer, prometeu. Privar-se-ia a partir daquela noite. Todas aquelas areias cintilantes do deserto de escuridão que era aquela noite foram suas testemunhas. Não mais, nunca mais, até regresso nenhum. Acabar com aquilo. Sacrificar a curiosidade sórdida que se lhe havia povoado a alma. Renunciar ao conhecimento penoso. À náusea da injustiça.
Na verdade o que se propunha não era um verdadeiro sacrifício. Era-o para ela, sim; mas não para a sua alma. Sacrifício era continuar naquilo. Mas estava acabado. Em definitivo. Era o fim.
Nessa noite, ontem, tornou-se responsável de tudo, perante todos. Perante si.
ss



