Azul, muito azul que se foi fundindo em tons mais quentes, de um sol que se despedia. Não corria nem uma leve brisa, estava tudo calmo, parado! O negro cresceu e conquistou a totalidade do céu. Nunca tinha observado com tanta atenção o nascer da noite… As estrelas foram surgindo, primeiro as mais brilhantes, seguindo-se as mais distantes. A cada minuto pareciam mais… incontáveis pontos cintilantes que decoravam, ordenadamente, aquele manto de escuridão. O mar reflectia a lua, enorme, sedutora, mais bonita que nunca!! Olhei-te pelo canto do olho… Adormeceste!
Fico longos minutos a rever todas aquelas marcas que faziam de ti a minha estrela… Decido acordar-te, noutros tempos não o faria…
- “Estas a perder a melhor parte!!”
- “O quê? O banho?!”
No meio de gritos e insultos, já estamos os dois enfiados na água.
Foi enrolados na toalha, salgados e em risco de hipotermia que tivemos a melhor conversa de sempre. Não falamos de “nós”, porque o “nós” é que estragou tudo...Cada um falou de si e ouviu a opinião do outro. (Sim… irrita-me profundamente que conheças, melhor que ninguém, a minha pior parte. Sabes que a minha determinação é totalmente falível… Conheces o meu gigantesco medo de fracassar… ) Criticaste a minha falta de coragem para lutar pelo que mais quero, só pelo terror que tenho de falhar: “Oh Sílvia, algum dia tens de decidir se queres ser uma sonhadora conformada ou uma pessoa feliz. (…) Se ao menos ouvisses alguns dos bons conselhos que me dás... (…) Sabes qual é o teu problema? Exiges demasiado… queres tudo perfeito, mas na verdade consegues viver de pequeninas migalhas. Um sorriso basta para te encher o coração e te lançar numa espera angustiante pelo próximo sinal de que o teu sonho é possível… E o que eu realmente não compreendo é como é que tu vais sobrevivendo assim… como é que, “sem nada”, acordas de manhã cheia de força para um novo dia, para uma nova espera… sempre com todo esse amor para dar!”
Inevitavelmente acabo a noite a chorar, porque no fundo sei que sou tudo aquilo que dizes e não encontro em mim força suficiente para o mudar. Enfim, agora haverá mais pessoas a conhecer a minha parte “má” o que me pode ajudar a encontrar a coragem necessária para me mudar… ou não.
Nunca tínhamos conversado sobre mim, era sempre eu a apontar-te os erros, os defeitos… Esta noite pude ver e sentir, claramente, que talvez tenhas sido o fruto do meu único momento de coragem… E que, o que eu vi como fracasso é, na verdade, um grande tesouro, que por pouco não soubemos preservar. Orgulho-me muito de ter gostado tanto de ti… Porque afinal, as estrelas, mesmo depois de mortas, continuam a brilhar… e tu hoje brilhaste mais que qualquer outra...
SS